Quando chegamos, em uma tarde ensolarada, na rua do Chacon, estávamos nervosas e emocionadas. Havíamos esperado mais de um mês pela oportunidade de entrevistar um dos ícones da nossa cultura e estávamos munidas de máquina fotográfica, gravador, lista de perguntas e tudo que parecia necessário para uma boa entrevista. O genro de Ariano nos abriu a porta; o autor estava terminando uma filmagem iria nos atender em seguida. Ariano Suassuna estava sentado em uma cadeira no jardim, em frente a uma câmera, e acenou de longe, muito simpático. Entramos na sala austera, com diversas cadeiras de madeira escura, ornada com esculturas e pinturas de artistas locais. Escolhemos um banco com três lugares para sentar e espalhamos nossa parafernália jornalística. Logo entrou na sala Ariano, nos cumprimentando efusivamente e se acomodando em uma cadeira de balanço próxima. Ariano falou durante uma hora, nos encantando a cada pergunta. Balançando na cadeira, projetava seu corpo para frente quando o assunto o instigava. Com eloquência e paixão defendeu seus pontos de vista, falou um pouco da sua vida e de sua obra. Ariano nos deixou à vontade e com vontade de passar a tarde toda conversando. E aqui está um pouco do que foi falado em nosso bate-papo informal, com idéias marcantes e frases de efeito, fruto de uma tarde inesquecível.
LITERATURA
Ainda é cedo para definir os novos clássicos da literatura.
Mas, no caso de Guimarães Rosa existe uma
presunção de imortalidade e de universalidade.
O senhor sempre cita vários clássicos da literatura nacional e estrangeira que o acompanharam ao longo da vida. Quais seriam os novos clássicos?
Eu acho que é ainda cedo para definir os novos clássicos. É uma tolice e uma infantilidade se auto-denominar um clássico, como eu vi alguns escritores fazendo. Mas, para citar um, no caso de Guimarães Rosa existe uma presunção de imortalidade e de universalidade. A obra dele provavelmente vai atingir várias épocas e o mundo inteiro, como Dom Quixote.
Mas existe excelente literatura nacional e estrangeira contemporânea...
Sim, mas não podemos chamar nenhum escritor vivo de clássico. E também nenhum escritor recente que já tenha morrido. Acho que, na literatura brasileira, vão ficar a prosa de Guimarães Rosa, a poesia de Drummond, a poesia de João Cabral de Melo Neto. Mas é cedo para falar disso. Um verdadeiro clássico para mim é Euclides da Cunha. Já se passaram 100 anos da publicação de Os Sertões e o que tinha que envelhecer na obra já envelheceu.
Uma das obras brasileiras mais premiadas no Brasil e no exterior é Budapeste, de Chico Buarque, que é um compositor. Como o senhor vê isso?
Eu não conheço a obra de Chico Buarque. Nunca li nenhum livro dele, mas eu admiro muito como músico e compositor. Mas não acho de espantar que ele, como compositor, tenha escrito um livro bom. Nós temos na literatura brasileira mais de um mestre cuja formação não é em Letras. Só de médicos, vou citar 3 de primeira ordem: Pedro Nava, extraordinário memorialista, Jorge Lima, grande poeta e João Guimarães Rosa, grande romancista. E olhe que a medicina não tem nada a ver com literatura!
ÊXITO E SUCESSO
O assédio dá trabalho, mas se a alternativa for
a indiferença ou a hostilidade, eu prefiro o carinho trabalhoso.
O que o senhor considera um equívoco em festas literárias como a FLIP?
Nestes eventos, as pessoas misturam o interesse na literatura pelo que existe de mundano na vida literária. Os escritores vão ser olhados por coisas que não são exatamente a sua literatura. Por exemplo, eu não acho que o escritor deva ser examinado pelo lado do sucesso ou não-sucesso. Eu faço sempre uma distinção entre sucesso e êxito. Nenhum escritor verdadeiro busca o sucesso e, sim, o êxito. Os Sertões de Euclides da Cunha é um livro que constitui um êxito. Mas qualquer astro da televisão tem mais sucesso que Euclides da Cunha. Pela própria definição, sucesso é uma coisa efêmera.
Dentro dessa definição, o Auto da Compadecida} é um êxito e um sucesso?
Ainda é cedo para saber se foi um êxito, porque só se pode dizer que os clássicos são êxitos. Um êxito pressupõe durabilidade e permanência. Mas a Globo fez da obra um sucesso. Eu não tenho muitos sucessos, sou um escritor de poucos livros e de poucos leitores. A exceção é o Auto da Compadecida, que fez sucesso no cinema e na televisão.
Como o Auto da Compadecida mudou a receptividade do público à sua obra?
A receptividade aumentou muito. Se não na parte literária, aumentou muito na parte mundana da literatura. Antes as pessoas me viam passar na rua e não sabiam que eu era o autor do Auto da Compadecida. Agora sabem.
Isso foi bom?
Por um lado é bom. O assédio dá trabalho, mas se a alternativa for a indiferença ou a hostilidade, eu prefiro o carinho trabalhoso.
O NOVO LIVRO
Neste livro eu pretendo juntar a minha discussão,
a minha poesia e os meus diálogos.
De que fala o novo livro?
O narrador principal é um encenador, que tem um pai adotivo e três irmãos, um poeta, um romancista, um trovador. Este personagem principal tem o sonho de ser escritor, mas é rejeitado pelo pai. Ele então organiza um simpósio sobre a obra dos outros três irmãos. Através deste simpósio eu pretendo juntar a minha discussão, a minha poesia e os meus diálogos.
BRASIL REAL X BRASIL OFICIAL
Os pensadores que Euclides da Cunha cita são péssimos, o que prova
o grande escritor que ele era. Não é pela filosofia, pelo pensamento,
pela ciência, que a obra dele sobreviveu.
É pelo trabalho do grande artista que ele foi.
Fale um pouco da distinção entre o Brasil Real e o Brasil Oficial.
Esta distinção foi feita por Machado de Assis em 1870, em um artigo para um jornal. O país Real é bom, e reserva os melhores instintos. O país oficial é caricato e burlesco. Se ele vivesse hoje, ele veria que a distinção continua a mesma. O país real continua bom e o país oficial piorou. No século 19, o Brasil queria imitar a França, que pelo menos é um país latino. Agora, somos caricatamente americanizados. Eu acho essa distinção fundamental. Os dois maiores escritores brasileiros do século XIX são Machado de Assis e Euclides da Cunha e é a partir da obra dos dois que temos que refletir sobre o Brasil. Euclides da Cunha, tinha uma visão mecanicista e positivista da história, herdada da da falsa ciência social européia do século XIX. Isso foi o que envelheceu da obra de Euclides da Cunha. Os pensadores que ele cita são péssimos, o que prova o grande escritor que ele era. Não é pela filosofia, pelo pensamento, pela ciência, que o livro dele sobreviveu. É pelo trabalho do grande artista que ele foi. A linguagem que muitos têm como áspera é a única linguagem capaz de reerguer aquele mundo que ele queria reconstruir, numa obra que tornasse esse universo acessível a outras pessoas. A única linguagem capaz de recontar do ponto de vista do país real o episódio de Canudos. Em Canudos tentou-se reconstruir uma comunidade baseada nos valores do Brasil Real. O próprio Antonio Conselheiro era um profeta saído do Brasil Real. E Euclides da Cunha saiu do Brasil oficial e foi tentar entender o Brasil Real. Euclides da cunha diz: Nós brasileiros nos aliamos pela nossa terra, deslumbrados pelas miragens de uma civilização de empréstimo, que nós recebemos embaladas por dentro dos transatlânticos - imagine se ele conhecesse a América hoje, com a internet - e que nos acotovela na rua do Ouvidor. Nós nos aliamos deixando de lado e desprezando o sertão onde se desata a base verdadeira da nossa nacionalidade. Ele criou dois emblemas: o da rua do Ouvidor, que tinha a imagem falsificada e falsificadora do país oficial e o emblema do sertão onde estava o país real, a rocha vida da civilização brasileira. Aí aconteceu um fato curioso: Euclides trabalhava em um jornal em São Paulo e foi convidado a fazer uma matéria jornalística sobre a situação em Canudos. Ele saiu do lado da república positivista e capitalista, como um cruzado da república para acabar com o que ele considerava os últimos vestígios da barbaridade sertaneja. Quando chegou lá, ele que tinha o caráter de um homem de bem, simpatizou com a causa deles. Quando ele viu o crime que a república estava cometendo contra os sertanejos, mudou de lado e abandonou a república. Mas a conversão foi recente demais. Ele ficou perturbado e achou que a única parcela do Brasil Real que existia era o sertanejo e ignorou a humanidade das favelas. Ele considerou todo o Brasil urbano como sendo oficial.. E eu, influenciado por Euclides da Cunha passei muito tempo pensando desse jeito.. Como eu sou um sertanejo, eu não enxergava que na cidade, quando a polícia cerca uma favela, é o povo do Brasil Oficial cercando o Brasil Real, cercando aqueles arraiais de Canudos. Este Brasil Real urbano também tem que ser levado em conta quando se faz esta distinção. Euclides da Cunha não levou, infelizmente. Mas é muito fácil hoje, eu, colocar os óculos dele e enxergar mais longe.
E o Lula? O presidente passou do Brasil Real para o Oficial?
Nem em uma revolução se pode deixar de fazer concessões. E a esquerda não está no poder, está no governo.