Aos 34 anos, Fabrício Carpinejar é um autor premiado, poeta badalado, amado por seus leitores. O carisma que demonstra nas palestras e oficinas que ministra, suas performances sempre surpreendentes, a onipresença na internet, são algumas das facetas deste autor, que consegue excelentes cifras de vendagem em um gênero considerado espinhoso: a poesia.
Seus passeios pela prosa estão em seu último livro, {O amor esquece de começar}, uma coletânea de crônicas publicadas em jornais, revistas e internet. Nas crônicas de Carpinejar, os pequenos detalhes cotidianos são vistos com lentes de aumento precisas e ao mesmo tempo apaixonadas pelo que estão magnificando. Poesia disfarçada de prosa.
Polêmico, está à frente do primeiro curso superior de formação de escritores no Brasil, da Unisinos, no Rio Grande do Sul. Com nomes como João Gilberto Noll, Moacyr Scliar, Affonso Romano de Sant' Anna no elenco de professores, o curso já teve o seu primeiro vestibular e conta com 51 aspirantes a futuros autores.
Acompanhe a entrevista, na qual Carpinejar fala da mesma forma que escreve: com paixão. Paixão que contagia e pode ser percebida nos gestos contundentes que pontuam suas frases, no olhar penetrante que desconcerta e convence, na forma declamada e exaltada de defender suas idéias.
Qual a linha divisória que há entre uma frase de efeito colocada em estrofes e uma poesia?
A poesia pode estar em diferentes gêneros. Pode estar em um romance, em uma crônica, em um conto. A poesia não precisa do verso, e pode ficar mais contundente quando não se espera por ela. A frase de efeito é decorativa. A poesia derruba a casa. O poema prolonga o impacto, desconcerta. Eu vejo todas as pessoas como um LP. O poema é a agulha, que puxado várias vezes arranha e produz eco. Esse eco é alguma coisa que a pessoa precisava ouvir, mas não conseguia organizar. O poema organiza palavras que estavam desarrumadas no leitor.
Os pequenos poemas não denotam uma incapacidade do poeta de desenvolver uma idéia? O poeta não é um proseador preguiçoso?
Tu estás me chamando de poeta preguiçoso? (risos) Adoro a luxúria da preguiça. Olhando minha mulher nas poses mais preguiçosas eu sinto desejo. Quando o desejo está despreparado, fica mais à vontade, porque não está armado, engatilhado, bélico. O movimento para o qual você não estava preparado te envolve. Assim é o poema. Como vamos saber se o poema está ou não pronto? Todo poema devia terminar com ponto e vírgula. Porque o poema não termina, é o poeta que o abandona.
Você faz rascunho, trabalha um poema?
É difícil constatar que.. eu só faço rascunho! (risos) Manoel de Barros tem um verso muito bonito que diz “O homem é rascunho de pássaro.” Nas provas de colégio, de vestibular, eu nunca tinha tempo para passar a redação a limpo. Nós não temos tempo na vida para passar a limpo. Então, eu já capricho de início. Precisamos acabar com a hierarquia na literatura, na qual o autor classifica sua obra como “meu melhor” , “meu pior”. É tudo misturado. A gente tem que usar a dor para tentar desenvolver a alegria, usar a alegria para desenvolver a dor. Temos que usar a melancolia para desenvolver a saudade.
Então poesia é puro sentimento?
Poesia é sentimento impuro. Há sempre uma complementação entre sentimento e razão. Dizem que o poeta tem que ser espontâneo. A espontaneidade se faz com treino. Um tímido, por exemplo, se prepara, ensaia várias vezes a cena, antes de dizê-la. E a cena não depende somente da pessoa, depende da intensidade do outro. É esse improviso que a poesia tenta sorver.
E a métrica, não é um entrave para este improviso?
Eu valorizo a técnica, a métrica. É importante conhecer, é um recurso a mais para escrever. Quem aprende natação, aprende todas as formas de nadar. Na poesia, o poeta precisa passar por todos os movimentos, para poder escolher.
Você acha que idéias atuais podem ser transmitidas usando a métrica de um clássico como Homero, por exemplo?
Podemos escrever como Homero, mas não podemos ser Homero. Homero já esteve aqui. É um legado que faz parte, já está no nosso sangue. A poesia não funciona por suplências, por substituições de autores. Não podemos ser formalistas, mas também não podemos desdenhar do formalismo, porque temos medo de tudo aquilo que desdenhamos. O ódio sempre traz o temor. Eu acho que temos que ter respeito. Eu sou apaixonado por casa velha. O barulho do chão é maravilhoso. As casas velhas conversam, ao contrário de outras, que são autistas. Eu me escuto melhor em casa velha. E também posso me escutar melhor com um soneto. Quem disse que não vai ser uma casa sonora? E pode ter uma temática, um ímpeto extremamente urbano. O conteúdo é que vai exigir a forma. Além da necessidade, da ânsia do poeta.
E a visão do poeta sobre o conteúdo também. Pode-se entrar em uma casa velha e não ver nada além de poeira...
Claro! O desejo é letrado ou analfabeto. O poeta tem que ensinar seu desejo a ler e a escrever. A medida amamos uma mulher, aprendemos seu idioma, seu dialeto. Aprendemos a ler esta mulher. Mas podemos nunca aprender a escrever.
Você fala declamando. Você pensa poesia o tempo todo?
Estava em casa o pensamento poético à paisana. A conversa em casa sempre girava em torno desses temas. Aquilo que pode nascer de um desvio, para mim sempre foi muito natural. E eu nunca precisei viver sem esse ímpeto, sem essa contaminação, sem humor, sem auto-crítica. Lá em casa, nós instituímos que cada um tinha que ajudar em uma tarefa, para seguirmos a nossa vida e nos sustentarmos. Nós sabíamos que toda atividade tinha um valor. O valor é o conjunto. Mas o mundo faz poesia naturalmente. Poesia está no nosso vocabulário, no futebol, em qualquer canto. É a surpresa, o arrebatamento para pensar diferente.
E um talento muito específico...
Quem realmente é poeta vai ter muita dificuldade em fazer qualquer outro gênero. Porque a poesia toma conta, assume a direção. É diferente do romance, que consegue se sustentar no formato tradicional. Poesia é anarquista, puxa o tapete, aterroriza, não acalma. As minhas melhores histórias saíram a partir da leitura de poemas. Quando o poema é bom, acende instintos positivos que o leitor não sabia que tinha. Nós passamos toda a vida querendo equilíbrio, mas o equilíbrio é falso, forçado. Nós precisamos encontrar a harmonia, que é mais forte, vem de dentro e não precisa ser mudada.
Você tem uma qualidade muito importante: conseguir chegar no leitor comum.
Eu não consegui chegar no leitor comum, eu nunca saí de perto deste leitor. Não existe essa hierarquia, o poeta não pode subir o degrau e ficar um patamar acima.
E como se fica no mesmo patamar que o leitor?
Antecipando o próprio leitor. Mesmo que ele possa derrubar, o poeta precisa ler o leitor. Eu, por uma questão de miséria ideográfica, me enriqueço com a existência dos outros. Estou lendo mais o leitor que a mim mesmo. Eu gosto muito dos detalhes, dos fantasmas que estão tentando puxar conversa, e pensamos que é vento. O vento que te arrepia é alguém querendo conversar contigo. E a poesia tem a questão do arrepio, do estremecimento, do toque. Eu estou cansado de ver a crítica julgar autores de grande público, sem pesar a qualidade. Atacam porque o autor não pode ser lido. Defendem a erradicação do analfabetismo e ao mesmo tempo estabelecem uma cota que o autor não pode transpor. O meio literário, onde a principal qualidade deveria ser a generosidade, é emperrado pelo egoísmo. Nós nos preocupamos mais com o que o outro está escrevendo do que com o que podemos escrever. Esta competição é predatória, não soma. Se um grande poeta está fazendo um grande trabalho, está fazendo este trabalho também para mim. Porque está abrindo portas para a poesia. Nós temos uma vida muito curta e não podemos tentar viver apenas do nosso nome. A poesia brasileira precisa aprender a viver, trabalhar e jogar em equipe.
Então você é a favor do marketing em cima de um autor, de um livro?
Eu sou a favor do fortalecimento da poesia em geral. Todo mundo quer ser o Ronaldinho Gaúcho da poesia brasileira. Mas um time sem Ronaldinho Gaúcho pode ser coeso e ganhar o jogo.
E o time de poetas é coeso?
(gargalhadas) Claro que não! Todos querem ser Ronaldinho Gaúcho! Todo mundo quer resolver o jogo sozinho. E a vida é muito curta para isso. O poeta precisa aprender a passar a bola. Que bom que eu possa existir, para que a próxima geração seja melhor do que a minha, ser melhor do que eu.
E qual a sua conbribuição para a preparação desta nova geração, além, é claro, da publicação das suas poesias?
Eu dou muitas oficinas. gosto de pensar que sempre que eu estou conversando, palestrando, posso estar inspirando alguém a conhecer poesia. Todo meu trabalho tem sido desenvolvido em torno do papel de despertar para a leitura. Eu assino um site de poesia, uma revista digital - A Máquina do Mundo, tenho um site pessoal http://www.carpinejar.com.br e um blog http://www.carpinejar.blogger.com.br, tenho o programa Entre Nós, de entrevistas, aberto ao público, na Livraria Cultura. E agora coordeno o curso superior de Formação de Escritores na Unisinos.
Sobre o curso de Formação de escritores. A idéia é sua ou você só coordena o projeto?
Eu coordeno o projeto e a idéia é reforçar a universidade como ponto de encontro de escritores, de literatura contemporânea e reforçar o sentido de criação e imaginação dentro da área de Letras. Há uma necessidade de formar agentes literários, de qualificar a relação dos autores com as editoras e ajudar o crescimento profissional de vários talentos e expoentes, isolados do convívio e da troca de opiniões.
Polêmica você conseguiu causar com esse curso: que tipo de escritor a faculdade vai formar? Isso não vai desmerecer o mercado, jogando uma série de pseudo-escritores que vão tratar a edição de um livro apenas como um negócio?
Literatura é também negócio, o que não invalida a legitimidade e a pureza da criação. Quando o livro está para ser vendido numa livraria é negócio. Acho que um escritor será verdadeiramente escritor quando fundar seu próprio universo e visão de mundo. Uma universidade pode entusiasmar escritores, nunca automatizá-los. Nenhum diploma autorizará alguém a se proclamar escritor. Mas é sua obra que dirá sua grandeza - e estaremos ajudando o estudante a construí-la. De modo nenhum, devemos reverenciar o diploma, e sim a experiência que o aluno poderá ter para melhorar sua literatura em contato com outros grandes autores. O diploma nunca deverá ser obrigatório na área de escrita criativa e sou totalmente contrário a essa distorção.
Escrever bem depende mais de talento ou de trabalho árduo?
Disciplina é amar com dedicação. Disciplina é não deixar que a vocação fique sem as palavras certas. Disicplina é não abandonar o que nos dá prazer.
E quanto à poesia? Um curso pode formar um poeta?
Devemos permitir que as individualidades possam crescer sem censura, com autonomia e domínio de linguagem.