No Brasil, muitos escritores precisam realizar diversas atividades paralelas para se manter. Vive-se de literatura em Portugal?
É bastante difícil viver apenas da literatura em Portugal. Creio que é assim em todo o mundo. No entanto, com alguma sorte, tenho conseguido viver daquilo que escrevo desde a publicação do meu primeiro romance.
Falando sobre Nenhum Olhar: eu achei o livro perturbador, pela história, pelos personagens, pela desesperança. É um livro que dá margem a muitas discussões. Qual foi a receptividade do público à história? Você teve este retorno?
Acho ótimo que a leitura de Nenhum Olhar a tenha perturbado. Muitas vezes, é bom haver livros que nos perturbem. A receptividade a esse livro e à sua história foi muito maior do que eu poderia ter imaginado enquanto o escrevia. Já encontrei todo o tipo de reações. Gosto de imaginá-lo como um livro que nos fala daquilo que pode acontecer se não percebermos constantemente que estamos vivos e, por isso, temos a obrigação de aproveitar a vida. Desde que foi publicado que já tive oportunidade de contactar com centenas de leitores e a maioria também o sentem dessa forma. Alguns desses leitores acabaram se tornando amigos próximos. Esse foi o caso de vários brasileiros com os quais tenho mantido estreito contato.
Em Nenhum Olhar, a dor, o sofrimento e a morte são uma presença constante. Quanto da pessoa do José Luís Peixoto está contido neste quadro? O livro reflete seu estado de espírito?
Acredito que as pessoas são sempre maiores do que os livros. Qualquer pessoa é maior e mais complexa do que qualquer livro. Esse livro foi escrito por mim, por isso, é evidente que muito daquilo que compõe se enquadra com aquilo que sou. Ainda assim, gosto de pensar que sou muito mais do que apenas isso. O meu estado de espírito não é só um. Como qualquer pessoa, tenho muitos estados de espírito.
Todos os personagens têm um nome bíblico. O próprio demônio une e também separa os casais. Por que esta relação da história com a religião? Você é religioso?
Existe uma relação desde livro com a religião a vários níveis. Prefiro, no entanto, que sejam os leitores a encontrarem essas relações e a fazerem as suas próprias interpretações. Essa particularidade do demônio, por exemplo, é um dos casos em que uma questão se coloca ao leitor. Deverá ser ele a interpretá-la. Não considero que a minha interpretação seja mais válida do que a de outra pessoa qualquer. No que diz respeito à religiosidade, creio que essa é uma marca civilizacional a que nenhuma das pessoas que tenham nascido neste último século (pelo menos) podem escapar. Pela minha parte, tenho a minha própria religiosidade que, atualmente, não se enquadra com nenhuma confissão religiosa que conheça, mas que existe.
As mulheres de Nenhum Olhar não têm nome: são chamadas a cozinheira, a prostituta cega, a mulher de José. Ao mesmo tempo, são personagens chave, e sempre envoltas em dúvidas a respeito da sinceridade de seus sentimentos. Por que?
Não concordo que seja posta em causa a sinceridade dos seus sentimentos. Concordo que sejam personagens-chave. Aliás, esse foi um dos motivos que me deu confiança para não lhes dar nome. A sociedade onde esse romance se passa é muitas vezes machista e pouco respeitadora da individualidade das mulheres. Ao não lhes dar nome, quis denunciar essa atitude e quis mostrar o quanto é injusta.
Você está escrevendo um novo livro? Quando será publicado? Fale um pouco sobre a história.
Neste momento, estou terminando o meu terceiro romance. Este é o romance bastante mais otimista e luminoso do que {Nenhum Olhar}. O sentimento que escolhi tratar nas suas páginas é a ternura. Espero, no entanto, que seja publicado em breve no Brasil o meu segundo romance. Chama-se {Uma Casa na Escuridão} e trata-se de um romance que, em muitos aspectos, suplantou o sucesso de {Nenhum Olhar}. Estou muito curioso em relação à reação dos leitores brasileiros.
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PERFIL LITERÁRIO
Qual o melhor lugar para ler?
Em casa, na cama.
Qual o primeiro livro que você leu? Ou o primeiro livro que marcou?
O primeiro livro que li foi, ao mesmo tempo, o primeiro livro que me marcou. Tratou-se de Esteiros, um romance neo-realista do autor português Soeiro Pereira Gomes.
Que livro você está lendo no momento?
Estou relendo Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato que vou apresentar aqui em Lisboa na semana que vem. Além disso, estou lendo o último livro de Margaret Atwood - {The Penelopiad} -, assim como vários livros de poesia de vários jovens autores portugueses.
Qual o seu gênero literário favorito?
Leio muitos romances e muita poesia. É difícil dizer qual desses géneros é o meu favorito.
Jamais leria?
Não há nenhum livro que eu não gostasse de conhecer.
O melhor livro da literatura brasileira para você:
Poderia dizer um título e seria, com certeza, injusto para uma infinidade de outros.
E o melhor autor brasileiro?
Talvez Clarice Lispector. Talvez mil outros nomes.
Indicações de leitura:
Para ler no banheiro
Jornais.
Para ler no avião
Romances
Para ler no café
Poesia.
Para dar de presente. Para quem?
Dostoievski, {Crime e Castigo}, para a minha mãe, porque gosto muito dela.
Qual o melhor livro que você escreveu?
Talvez o meu primeiro livro. Chama-se Morreste-me e é muito especial para mim.
E o que mais gostou de escrever?
Foi muito entusiasmante escrever {Nenhum Olhar}, mas todos os livros que já escrevi partiram de processos bastante intensos.
Dos seus personagens, qual o que mais gosta?
Gosto de todos. Amo-os a todos.
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TRECHO DE NENHUM OLHAR
José entrou na venda do judas e era noite. Trazia ainda no corpo a roupa ruça do sol, na pele a luz ocre da terra, trazia no rosto um sorriso reverente. Antecedeu-o o cajado, grosso na ponta, sujo. A cadela cansada, parida, com a pele da barriga quase a arrojar no chão e as tetas grossas, seguiu-o. No balcão, tirou o saco que trazia preso por um baraço ao ombro, encostou-o, encostou-se. Um copo de tinto. Os poucos homens que o cumprimentaram arrastaram uma sílaba indecifrável, a esmorecer. Os outros, sem parar de falar ou beber ou jogar às cartas, olharam a querer vê-lo. A cadela assentou as costelas no chão, vergou a espinha num arco de nós que se lhe conheciam no pêlo e deitou as pálpebras sobre os olhos castanhos e resignados.
No momento em que José levantou o copo e fez o vinho escorrer de uma vez para dentro de si, vistos do outro lado do largo, vistos da noite e do silêncio, os homens na venda do judas eram o espaço aberto de uma porta; eram um caminho fraco de luz que tentava avançar pelo terreiro deserto e pela noite negra e negra; eram o lugar de palavras que não se distinguiam e que tentavam entrar pelo terreiro deserto e pelo silêncio negro e negro. E José pousou o copo vazio no balcão, e junto à sua pele, sob a luz, sob as palavras, instantâneo, materializou-se o sorriso vadio do demónio. Sorria. Era o único que não trazia a pele escura do sol, trazia camisa e calças passadas e vincadas, cabelo penteado entre a boina e as saliências dos cornos. Era o único que sorria. Dois copos de tinto, pediu sorrindo. José não precisou de o olhar. Em silêncio, esperou os copos cheios até à gota que lhes faltou para que transbordassem. Enquanto beberam, o demónio não largou José com o olhar e, mesmo bebendo, parecia sorrir um sorriso miúdo que se dividia e multiplicava por mil sorrisos e mil sorrisos miúdos. Os homens continuavam ou pareciam continuar as suas conversas infinitas, os seus jogos infinitos de cartas, interrompendo apenas para espreitar as mudanças no rosto de José e o sorriso escarninho do tentador ou para cuspir restos húmidos de cigarros enrolados. E o rosto de José transformavase.
Copos sucessivos enchiam-no, aos poucos, de uma alegria sem razão, uma alegria de carnaval e ensaiados. O demónio sorria. Sorrindo, perguntou como estás, onde está a tua mulher que não a tenho visto? Por um momento, brilharam os olhos de José e parou de murmurar risos para responder está onde deve estar, donde nunca saiu. As vozes misturadas dos homens eram então um mar a estender ondas de palavras sobre as cabeças; ondas que partiam de um rumor e se estendiam longas numa algazarra difusa, para logo se recolherem, deixando no ar desperdícios de palavras, sílabas sem préstimo e desarrumadas como coisas velhas numa estrumeira. Nunca?, disse o diabo a rir e a sorrir. Calou-se o José e calaram-se os homens para ouvir a resposta que não deu. Dois copos de tinto, insistiu o tentador, sorrindo. Sabes, continuou enquanto sorria, disse-me o gigante que a conhece mais que tu, que sabe melhor e com mais certeza onde ela anda, onde ela está.
Da lonjura branca da sua aura de álcool, José parou para entender. Sob o pó, os homens, como toupeiras, abriram os olhos pequeninos, a querer rir mas sem saber como, a grunhir apenas. José respondeu esse gigante já mentiu de mais; a minha mulher está onde sei que está, onde deve estar; e esse, se o vires, diz-lhe que me apareça, que me apareça. E levantou o punho fechado bem alto e, num movimento prolongado, bateu-o no balcão. A cadela levantou-se e saiu lentamente. E José ainda disse ele que me apareça que eu estouro-o. Fez-se uma pausa na face dos homens e, após esperarem o instante certo, todos ao mesmo tempo, começaram a dançar, a voar num círculo, a rodar à volta de José. Ele, que apenas lhes distinguia os contornos baços e a mistura das cores, recuperou a alegria no rosto e rodou e dançou e caiu e caiu e levantou-se e dançou outra vez. Num canto, o demônio sorriu, finalmente satisfeito de sorrir.