Coluna do Juva

O coração vagabundo desta bela coluna

AUTOR: juva batella


Eu disse no meu texto anterior que não estava acontecendo nada em Santo Amaro de Oeiras e, por causa disso, eu havia decidido ir a Lisboa buscar algumas fortes emoções. E, para que as emoções fossem ainda mais fortes, fui ao cardiologista. Devo dizer que as encontrei, enfim, e elas foram mais fortes do que alguma vez cheguei a imaginar. Eu, na verdade, as revelei aqui, mas de um modo tão discreto que hoje vejo que passaram despercebidas até para mim mesmo.

Eu escrevi que a minha “válvula aórtica não é lá muito cristã no seu vai-e-vem de abrir e fechar. Tenho de substituir a dita cuja por uma mecânica, tomar uns remedinhos, fazer exames periódicos e pronto”. Eu escrevi isso como quem escreve que o “amortecedor esquerdo dianteiro do meu carro não está lá muito cristão no seu vai-e-vem de subir e descer. Tenho de substituir o dito cujo por um melhor, fazer uns ajustezinhos periódicos e pronto”.

Agora me dou conta da razão pela qual eu fui assim tão protocolar na exposição do meu drama pessoal. Eu não queria fazer disso um drama pessoal, embora isso seja, de fato, um drama pessoal. Eu não queria admitir a minha necessidade de, pela primeira vez aqui nesta coluna, falar de mim sem estar encostado e sendo alimentado por essa espécie de humor que vem caracterizando os meus textos aqui deste nosso Armazém Literário de Cada Dia.

Agora, no entanto, talvez a minha escrita tenha precisado realizar este insólito desvio que acabou me levando, como sempre levou, a mim mesmo, mas por uma outra via - uma via que não passa pelo meio dos balões coloridos desse parque de diversões que é o humorismo. Entrei por esse desvio e por essa via onde não há esse velho humor de guerra desde que fui a um cardiologista aqui de Lisboa e ele me apontou a curiosidade relatada no meu texto anterior: a de que a pele sobre a base do meu pescoço pulsa discretamente devido a um problema que eu tenho na válvula aórtica.

Eu já sabia da existência do problema; um problema que se deve ao fato de eu sofrer de uma artrite reumatóide que acaba produzindo uma calcificação na válvula que está localizada na raiz da aorta. Esta calcificação leva a uma regurgitação leve do sangue, que, em vez de sair, permanece no ventrículo esquerdo, dilatando-o aos poucos e com os anos. “Com os anos”, disse-me o meu cardiologista brasileiro, “esse ventrículo irá crescer, e um belo dia teremos de substituir a válvula através de uma cirurgia no coração.” Isso era até então uma possibilidade reservada ao futuro longínquo, uma vez que este mesmo cardiologista brasileiro vem acompanhando ano a ano o meu coração e observando que o processo de dilatação é lento, bastante lento, e que não há motivos para alarde. “Seu coração é um pouco maior do que a média e seu ventrículo tende a crescer, mas isso está longe de chegar ao ápice. “E qual é o ápice do processo?”, perguntei. “O ápice é a produção de um edema pulmonar. Ou seja, caso esta evolução não esteja sendo controlada e caso chegue então ao seu ponto crítico, a pressão de sangue sobre o ventrículo irá chegar às veias que desembocam no pulmão, e é este o ápice do processo. Muito antes de isso acontecer, faremos a cirurgia”, disse ele, tranqüilizando-me.

E tudo isso eu disse ao cardiologista português, e disse ainda que eu não tinha aqui comigo todos os ecocardiogramas realizados no Brasil, mas que pediria que me mandassem pelo correio. Ele, de todo modo, quis que eu fizesse um ecocardiograma. E marcamos de nos encontrar num grande hospital daqui de Lisboa, onde ele trabalha.

Fui ao hospital pela manhã, esperei um bom tempo, entrei numa sala, deitei numa caminha e uma jovem assistente começou a realizar o ecocardiograma, perguntando-me o motivo do exame e soltando de vez em quando uns resmungos, enquanto eu observava tudo, e sem entender nada, pelo monitor. Eu lhe falei da minha leve regurgitação de sangue, e ela aproveitou para me comunicar, de um modo bastante direto, que a minha regurgitação não era nada leve, muito pelo contrário. Eu disse que talvez ela devesse conhecer os meus exame anteriores, para que, com o histórico dos ecocardiogramas, ela pudesse avaliar a problema de modo mais contextual. Ela fez “Hum”, não disse mais nada e saiu então da sala. Alguns minutos depois, minutos durante os quais eu comecei a ficar inquieto e atacado por pressentimentos bastante desagradáveis, entrou na sala o cardiologista português, que olhou para mim, que ainda estava deitado e sem camisa, pôs a mão no meu ombro e disse simplesmente, como se estivesse a fazer uma avaliação do estado do amortecedor do meu carro: “A sua válvula aórtica não está nada boa e precisa ser trocada”.

Eu permaneci parado, olhando para ele e engolindo em seco. E acho que pela primeira vez na vida eu pensei, de fato, e não apenas de uma maneira distanciada e mesmo literária ou filosófica, na minha própria morte - não aquela morte potencial, localizada naquele futuro que é o final da velhice, ou aquela morte improvável, flagrada em meio aos acasos da vida, a morte fortuita e azarada dos acidentes, das tragédias, dos terremotos e das balas perdidas. Não essas mortes, mas uma outra, que no meio de uma manhã de sol, aqui em Lisboa, aparece na telinha da minha consciência e de repente, por um átimo de segundo, me dá um breve aceno e desaparece, deixando o seu quase inexprimível rastro de medo.

E pensei em seguida, como se uma coisa não pudesse estar desligada da outra, em como seria a vida de tudo o que me cerca após a minha morte, e em seguida, imediatamente, na minha mulher, na Alice, minha filha de quatro anos, e, com uma força que eu não imaginava que ela já pudesse estar exercendo sobre a minha consciência e os meus medos, na Clarinha, tão mínima, naquele dia com menos de três meses de idade; na Clarinha, que eu ainda não conheço direito, e nem ela a mim. Isto tudo se passou num tempo não mensurável, e quando dei por mim já estava pedindo ao cardiologista parado à minha frente mais detalhes, querendo fazer mais perguntas e querendo que ele, de algum modo, me tranqüilizasse, mas ele me disse que estava muito ocupado ali no hospital e que eu marcasse uma consulta para a próxima semana. Eu me comprometi então a levar para ele os ecocardiogramas realizados no Brasil, para que ele conhecesse o histórico do meu problema, e ele se comprometeu a levar para o consultório o laudo daquele ecocardiograma feito ali mesmo.

Ainda tive de tratar de umas papeladas no próprio hospital, pegar senhas, esperar em filas e preencher fichas. E vaguei por aquele hospital gigantesco, vendo pacientes em macas que entravam em elevadores apinhados de gente chegando da rua e tossindo e carregando sanduíches, e pacientes andando, tristes, segurando papeizinhos, pacientes sentados ao meu lado e também à espera, e senhoras velhinhas que puxavam conversa comigo acerca do que eu, tão jovem, estava fazendo ali, e puxando a conversa revelavam que o que queriam mesmo era falar; falar desesperadamente com quem quer que fosse de seus problemas, de suas doenças, suas esperas e suas esperanças, suas curas, e eu ouvia tudo aquilo, sem conseguir abrir a boca e tentando manter os olhos secos, mas os olhos estavam sempre molhados enquanto eu ia relembrando, num choro lento e silencioso, a minha vida e remoendo o meu pasmo, a minha angústia e o meu medo diante da iminência de uma cirurgia cardíaca que eu imaginava que só iria ter de fazer daqui a muitos, muitos anos.

Tive de suportar, como se carregasse o coração na mão, o tempo decorrido entre aquela manhã no hospital e a próxima consulta, que se arrastou mas chegou, afinal. E já no consultório tive de ouvir do cardiologista que ele havia se esquecido de trazer com ele o laudo do meu ecocardiograma. Mas ouvi também, da sua própria boca, que, de fato, diante de todos aqueles outros exames brasileiros que eu agora apresentava a ele, era bastante claro que o problema da dilatação do meu ventrículo evoluía muito lentamente, mas ainda assim era necessário ver o laudo do exame realizado na semana passada, e ele me pediu então que ligasse para ele no dia seguinte, às duas horas da tarde. No dia seguinte, às duas horas da tarde, liguei, e ele então me disse que eu deveria ter ligado pela manhã, porque àquela hora ele já não estava mais no hospital e havia se esquecido de ver e pegar o exame. E ele então me pediu que ligasse para ele no dia seguinte, às dez horas da manhã. No dia seguinte, às dez horas da manhã, liguei, e ele então me disse que eu ficasse mais descansado, porque o problema, afinal, não era tão grande como ele próprio havia anunciado, uma vez que a dilatação do ventrículo pouco se alterou em relação ao último exame realizado no Brasil, seis meses antes... Aquilo me provocou um suspiro, dos mais profundos que já dei.

Talvez seja por causa disso tudo, de tudo o que me assustou, me apavorou, me entristeceu, me chateou e me alegrou, fazendo-me suspirar, que eu agora posso, acerca de tudo isso - sentado na minha cadeira e com a cabeça a uma distância mais que razoável do meu próprio coração, que bate visivelmente sob a pele da base do meu pescoço -, escrever, escrever e escrever.