Livros

Mapas de tesouros literários

AUTOR: gláucia lewicki

Obras primas que poucos leramDurante cinco anos, entre 1972 e 1977, a Revista Manchete publicou uma série de artigos sobre grandes obras da literatura mundial. Valia comentar tudo, ou quase tudo, de todos os gêneros, do romance ao teatro, passando pela poesia, biografia ou ensaio. O principal critério de seleção é que fossem obras bastante conhecidas do grande público, mas, inversamente à fama, nem tão lidas assim. Algumas, é claro, escapam das regras, como {Memórias Póstumas de Brás Cubas}. Mas, no geral, foi possível preservar o espírito da proposta inicial. E, vá lá: se muitos leitores não tivessem sido obrigados a ler determinadas obras no colégio, elas seriam, também, mais famosas do que propriamente lidas. Ao menos, por vontade própria.

Quando meu irmão me deu de presente os quatro volumes dessa compilação no último natal, fiquei pensando se os artigos não soariam datados, já que começaram a ser escritos quando eu era pouco mais que um bebê, e quando ele próprio nem havia ainda nascido. Engano meu.

Os quatro volumes foram organizados pela escritora e jornalista Heloísa Seixas. E estão longe de se apresentarem datados, embora tragam, aqui e ali, ecos (então próximos) de uma Guerra do Vietnã, por exemplo. Lembrando ainda que os artigos foram publicados em época de plena ditadura e censura no Brasil, há títulos que, simplesmente por terem sido escolhidos, dizem tudo, mesmo quando os artigos, em si, nada diziam sobre o momento então vivido.

Há de tudo um pouco: Kafka, Guimarães Rosa, Conan Doyle, Dashiel Hammet, Graciliano Ramos, Herman Melville, Virginia Woolf, Alexandre Dumas, William Faulkner... Não faltam obras de autores das mais diversas nacionalidades, épocas ou estilos.

Já entre aqueles que assinam os artigos estão Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony, Lêdo Ivo e Josué Montello, entre outros, com destaque para Otto Maria Carpeaux, que dava, em seus artigos, verdadeiras aulas não apenas sobre o livro em si, mas também sobre o autor, a época em que ele viveu e o contexto em que a obra foi escrita. É impossível não destacar também um jovem Ruy Castro que, com apenas 26 anos, brindava os leitores com brincadeiras e provocações, tornando o texto às vezes um pouco imaturo, mas sempre delicioso. São de sua autoria, sem dúvida nenhuma, os artigos mais divertidos.

Heloísa Seixas reconstituiu, com essa compilação, um verdadeiro mapa do tesouro das prateleiras. O leitor pode até não correr atrás do baú de riquezas que encerra a leitura ou releitura de todas essas obras. Afinal, são 35 artigos por volume, com exceção do último, que traz somente 30. De qualquer maneira, são, no total, 135 obras da literatura universal comentadas por grandes nomes do jornalismo e da própria literatura brasileira que, ainda por cima, relacionam a obra comentada com outras obras do mesmo autor ou outras obras do seu tempo. Há ainda obras citadas cujo cerne remete ao mesmo tema. Impossível ter tempo, dinheiro ou mesmo disposição para ler tudo isso. Mas vontade, bem que dá, ao menos em relação a uma boa parte dos títulos apresentados. E quanto àquelas obras que o leitor nunca lerá, ao menos, depois de passar por estes artigos, ele poderá se considerar devidamente apresentado a elas. Muito bem apresentado, diga-se de passagem.