Livros

A recompensa da ousadia

AUTOR: fernanda garrafiel

Boca do Inferno
Companhia de Bolso (2006)
1a Edição - Companhia das Letras (1989)
Ana Miranda

Boca do InfernoBoca do Inferno, de Ana Miranda, por um motivo prosaico, até mesmo pueril, na visão dos mais mal-humorados representa, para mim, a recompensa pela ousadia. Transpondo a situação para o cenário, explico melhor: PUC-RJ, 1989. Comunicação e Literatura. De uma lista de meia dúzia de livros, nós, os estudantes, deveríamos escolher um título para resenhar. Não me recordo de todos. Lembro-me, apenas, que a maioria escolheu {A Hora da Estrela}, de Clarice Lispector, por já o terem lido recentemente nos colégios de onde vieram. Fui a única, em uma turma de quase cinqüenta, a privilegiar o novo, escolhendo o único lançamento da lista: Boca do Inferno, de uma autora então desconhecida do grande público.

Não me arrependi. Sorvi o livro com deleite e escrevi minha resenha. Arrancar a nota máxima e um elogio verbal de um professor exigente foi apenas uma conseqüência. A maior recompensa pela minha ousadia foi o prazer de ser apresentada às desventuras de Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira, saídos da bidimensionalidade das apostilas de literatura do segundo grau para caminharem em carne, osso e tormentos pelas ladeiras de uma Salvador lasciva e corrupta, estranhamente vívida e atual, em que pese a trama, com um quê de policialesca, se desenrolar em 1683. Um grupo de conspiradores mata, em uma emboscada, o alcaide-mor da cidade, o que desencadeia uma narrativa dinâmica e cheia de reviravoltas, no mais puro estilo barroco, presente nos volteios de linguagem e na descrição dos ambientes e personagens. Entremeando os versos de Gregório de Matos e os sermões de Padre Antônio Vieira às falas e pensamentos de ambos, mesclando realidade exaustivamente pesquisada à ficção, a autora produziu uma obra-prima, e obteve um estrondoso sucesso em uma época em que os romances históricos não estavam em voga.

Sempre desejei rever o livro - meu exemplar, de primeira edição, ainda tem lugar na minha prateleira de favoritos. No entanto, por uma questão de tempo e sua ação sobre o mundo físico e psíquico, eu nunca mais o fiz. A ação do tempo sobre as folhas tornou-o amarelado, com o odor característico dos papéis guardados, verdadeira tortura dos alérgicos. E, psiquicamente, minha memória insistia em guardar a lembrança de uma excelente leitura que tanto prazer me deu em todos os sentidos. Comprar outro exemplar estava fora de cogitação - afinal, se disparo a fazer isso, em breve terei uma biblioteca duplicada e sérios problemas financeiros.

No entanto, eis que a ousadia da Companhia das Letras veio me socorrer: trilhando um caminho aberto no Brasil pela LP&M, a editora resolveu investir em edições de bolso, tão comuns nos países leitores. Pela metade do preço, com páginas de qualidade superior à maioria dos pockets estrangeiros, pude (re)comprar o {{Boca do Inferno}}, considerado pelo jornal {O Globo} um dos cem maiores romances em língua portuguesa do século XX.

A Companhia de Bolso mistura grandes clássicos universais, como {Declínio e Queda do Império Romano}, de Gibbon, da literatura brasileira, como {Clarissa}, de Érico Veríssimo, antologias poéticas de Vinícius, policiais premiados, como {O Silêncio da Chuva}, de Garcia-Roza e grandes sucessos recentes, como {Cinzas do Norte}, de Milton Hatoum e {Estação Carandiru}, de Dráuzio Varella. A ousadia de democratizar a literatura através da edição de baixo custo já alcançou sua primeira recompensa - em pouco mais de um ano, o selo Companhia de Bolso já é responsável por 7% do faturamento da empresa.

A propósito, mal posso esperar pela edição de bolso de {O Retrato do Rei}, outro livro de Ana Miranda que desejaria rever. Não me arrependi de reler {{Boca do Inferno}} quase vinte anos depois - sua leitura tem me sido tão ou mais prazerosa do que o foi há tanto tempo. E atual. As questões que sacudiam o Brasil de 1683 e nos deleitavam criticamente em 1989, ano das primeiras eleições diretas após o período da ditadura militar, ainda estão na ordem do dia, como é possível conferir no trecho a seguir:

“Mata, quanto estão ganhando os desembargadores?”
“Perto de seiscentos mil réis de ordenado, senhor governador. Fora as propinas. Os emolumentos chegam a mais de cem mil réis, mas eles solicitam gratificações para a festa das onze mil virgens e outras festas. Sem contar as taxas que cobram por serviços especiais e o que ganham em comissões e visitas, pode ser que chegue a mil e duzentos. Eles pedem para receber o mesmo que recebem no Desembargo do Paço em Lisboa os desembargadores. Mas o príncipe nega.”
“Vamos dar mais uma propina, para a festa de Santo Antonio. Providencie uma carta ao príncipe regente solicitando o aumento de ordenado dos desembargadores. E cópia da carta para cada um deles.”

É ou não um deleite, agora mais acessível aos maltratados bolsos dos leitores brasileiros?